terça-feira, 10 de julho de 2018

𝕊𝕆𝔹 𝔸 ℙ𝔼𝕃𝔼 𝔻𝕆 𝕃𝕆𝔹𝕆



“Bajo la piel del lobo”, mais uma produção com o selo Netflix, lançada em julho de 2018. É uma película espanhola com direção e roteiro de Samu Fuentes e um pequeno elenco, principalmente composto por Mario Casas, Irene Escolar e Ruth Díaz.

O filme é simples, cru, objetivo, mas excelente.

Econômico no elenco, é mais sovina nos diálogos, sendo quase um filme mudo. Também não se preocupa em localizar geograficamente a trama e tampouco em estabelecer um momento histórico. O protagonista usa uma carabina aparentemente fabricada no início do século passado. Só isto.

Nem nome os personagens têm.

Sob a simplicidade do roteiro escondem-se uma precisa direção e uma magnífica fotografia. Esta, dispõe-se em duas vertentes:

- A exuberante paisagem de montanhas geladas e trilhas rústicas.

- A modéstia de uma casa de montanha, despojada e simples, mas  emoldurada por uma sofisticada iluminação, gera momentos fotográficos de intensa beleza. É elegante no ambiente tosco, é o nada produzindo o tudo. Extraordinário.

O personagem principal é um misto de bestialidade e delicadeza. É ogro, mas é também homem. Quase não fala, mas sabe olhar, bufar, respirar com espalhafato e comer como um animal. Sabe também fazer sexo sem cerimônia e tão instintivo quanto o dos cabritos que cria.

O filme nos faz concluir que o cinema espanhol não se resume a Saura e a Almodóvar. Há também Samu Fuentes, até então desconhecido pela maioria.

É inquietante – talvez seja este o adjetivo que mais se adapta ao filme. Ele desconstrói um ideário comum a grande parte de nós, espremidos nas metrópoles e ansiosos por momentos de pacata solidão em geladas e idílicas paisagens.
Em um paraíso romântico também há os contrastes e os dramas. A felicidade não está no local, mas no interior do homem.


Não é filme para todos os gostos, mas certamente o é para os mais exigentes e que buscam no exercício da criatividade e do talento o maior fundamento da cultura.

Experimente o trailler oficial:
https://youtu.be/hB83Blf5LIw


sábado, 30 de junho de 2018

HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA DINAMARCA




Mais de 400 anos nos separam de Shakespeare e seu genial Hamlet, uma das obras literárias de maior expressão da língua inglesa. É uma história de traição, assassinatos, vingança, golpe de Estado, fantasmas e assombrações, loucura, impasses morais, paixões e a derradeira tragédia que coroa drama tão fundamental para a literatura de todos os tempos. 
   
Hamlet é obra complexa, enviesada, repleta de questionamentos existenciais e da incerteza, que são traços da alma humana.

As ambiguidades lá presentes também tornam o notável drama uma obra sempre atual. “Nada em si é bom ou mau, depende daquilo que pensamos.” Nesse momento questões éticas que se entrelaçam com a história, trazendo à consciência do príncipe e também de nós, brasileiros, tantos momentos de incerteza e dubiedade moral.

É nesse contexto que o Palácio das Artes apresenta (no Teatro João Ceschiatti) a peça "Há algo de podre no reino da Dinamarca". A troupe, constituída pelos formandos do curso de teatro do Cefart – Palácio das Artes transporta a história para nosso momento recente, produzindo um espetáculo de alta qualidade e pujante criatividade.

Ponteado por alguns momentos de humor (que se prestam a esfriar a chapa), a trama se revolve em espesso drama, ocasionais situações nonsense e constantes pontos de intersecção entre o drama inglês e momentos da realidade brasileira.

Ditadura, tortura, avanço da direita em tempos recentes e a virtual incerteza nacional com relação a seu futuro são discutidos com o mesmo espírito que norteou Shakespeare em seu drama universal.

As identidades entre ambos percorrem todo o transcurso da apresentação, estando presente no teatro e assistindo à peça até mesmo um fantasma. Não é mais o pai de Hamlet buscando vingança. É uma assombração verde e amarela que, não obstante envolta em brumas existiu e existe e conosco vem convivendo desde a ditadura. Permanece assombrando mentes comodamente assentado entre os expectadores, porém incógnito. Protegido está pelas precárias definições da Lei de Anistia. É fantasma. Mas ainda causa tragédias e tem o poder de intervir até mesmo em discussões atualíssimas de nossa política.

São as ambiguidades e dúvidas de Hamlet que têm conduzido nossa história recente, aqui presentes pelo notório desapego de nós, brasileiros, pelo aprofundamento intelectual e pela análise circunstanciada dos fatos que construíram nossa nação.

Trazem os atores também à pauta questões como homossexualismo, afirmação social da mulher, liberdade de expressão, tudo rodeado por um Hamlet indefinido, inconstante e atemporal, que atravessa os séculos em sua catarse filosófica.

Arrematando as impressões, é precioso notarmos que atores e personagens se misturam. Estes, tratados pelos próprios nomes daqueles, provocam um inusitado – mas profundamente autêntico – comprometimento da troupe com o excelente texto, com a precisa direção e com a própria história que ali está representada.

Não é peça que se assista sob a ótica de “formandos”. São atores em cena, trajados com o figurino histórico, mas vestidos de si mesmos, em um desempenho memorável. Estão maduros e prontos para enfrentar o profundo comprometimento da arte com o país e seus revolvimentos sociais.

Para que serve a arte, afinal? As respostas estão em “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, dispostas entre risos, apreensões, incertezas, relatos e profundo comprometimento com a brasilidade.

Lá está Hamlet, mas também estamos nós, não somente na interação oportunamente provocada com a plateia, mas também pela obrigação de nossas consciências, como partícipes que somos da construção de nosso pais.

É pra assistir, deliciar-se e aplaudir de pé.








sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

MINISTRA CARMEM LÚCIA: É CARA OU COROA?


Abertos os grandiosos portais da mais alta Corte de Justiça do país, guardiã da Constituição Federal por essência e por destino, discursos e personalidades por lá desfilaram. Sua presidente, dentre outros, manifestou-se afirmando:

“(...) O que é inadmissível e inaceitável é desacatar a Justiça, agravá-la ou agredi-la.(...)”

Nossa ilustre conterrânea certamente não estava se referindo ao descumprimento, por parte de Renan Calheiros, da decisão que o afastou da presidência do Senado em dezembro de 2016.

Certamente não se referira ao descumprimento, também pelo Senado, da decisão que determinou o afastamento ao também conterrâneo Aécio Neves em junho de 2017. O fato foi noticiado pela Folha de S. Paulo pela manchete “Senado ignora decisão do STF de afastar Aécio Neves do mandato.”

Será a que desacato a Magistrada se referiu?

No atual momento político todas as instituições encontram-se sob bombardeio, ora fruto de indignação popular,  ora fruto de manobras políticas, ora fruto das defesas de particulares interesses.

Com o Poder Judiciário não é diferente Só que compete a ele, em medida extrema, a proteção do arcabouço normativo vigente. No caso do STF, mais ainda. Cabe-lhe também ser fiscal e vigia insone da mais alta instância da legislação pátria – a Constituição Federal.

A nossa CF88 sustenta-se, em particular, por pilares inalienáveis - ou pétreos, como queiram –, sendo um deles o da liberdade irrestrita de opinião.  Nos exatos termos do inciso IX de sei artigo 5º: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; Fora disto, só a escuridão da ditadura. Mas a respeitável Ministra aparentemente esqueceu-se da intensidade e da profundidade desses ditames legais.

Afinal, Meritíssima, falar mal é também falar.

Ambas as versões estão solenemente acobertadas pelo direito de livre expressão. Nos casos em que tal exercício afrontar outros direitos também garantidos, a legislação oferece as figuras da injúria, da calúnia ou da difamação, às vezes acompanhadas da responsabilização civil.

Às mais altas autoridades compete a tarefa, às vezes difícil, de compatibilizar sentimentos pessoais e função pública, impedindo que os primeiros maculem o segundo.


São as duas faces da moeda que, jogada ao léu, às vezes dá cara, às vezes coroa. A grandeza do homem público está também em entender que no lanço da moeda, às vezes a cara reflete seu entendimento, mas coroa é imposta por seu cargo, ou vice versa. Aí, desvirá-la é sua obrigação, ainda que seus pensamentos tenham que se quedar ocultos na face que ficou oculta sobre a mesa.


domingo, 17 de dezembro de 2017

AS AVENTURAS DE BITCOIN NO REINO DA FANTASIA



Para falarmos dos Bitcoins precisamos, antes, considerar outros termos típicos da ciência econômica, quais sejam: BOLHA, PIRÂMIDE e RISCO.

Por bolha entendemos uma situação de euforia e de ganhos financeiros acompanhados da sensação de boas oportunidades, mas que não possui o devido lastro. Ou seja, assemelha-se a uma bolha de sabão, que é colorida, exuberante, apresenta grande expansão, mas é débil, delicada e quando estoura possui apenas ar em seu interior. A bolha, portanto, é fruto de pura especulação.

 Por pirâmide entendemos o golpe financeiro tantas vezes aplicado em nosso país. É um aparente investimento que costuma oferecer condições mirabolantes, altos rendimentos e uma ilusão de garantia representada pela promessa de ganhos mínimos consideráveis. O nome advém da situação dos participantes, que formam uma espécie de pirâmide à medida em que as operações aumentam, criando uma grande base que vai se estreitando até o topo, onde se encontram os verdadeiros ganhadores. Ou seja, os criadores e os primeiros investidores, que ficam no alto, ganham bastante dinheiro. À medida em que nos aproximamos da base, os prejuízos tendem a aumentar. Os últimos “investidores” têm os maiores prejuízos, chegando a perder absolutamente tudo o que aplicaram. Como exemplos tivemos no Brasil as operações com boi gordo, com avestruzes, containers para locação e muitos outros.

Quanto ao risco, é uma condição sempre presente em investimentos não conservadores. Os fundos em geral, aí incluídos os cambiais, de ações e de commodities, bem como as operações com dólar físico, mercados futuros, derivativos e tantos outros, têm rentabilidades, prazos e condições diversas, mas em comum possuem o risco. Também este é variável de intensidade, variando entre os moderados (lastreados parcialmente por garantias, como o hedge) e os arrojados ou agressivos, onde o perigo de perda é grande, sem qualquer lastro. Óbvio que maior risco representa consequentemente a possibilidade de grandes lucros ou amargos prejuízos.

Bitcoin é uma das espécies de criptomoedas, mas não é a mais recente. Diversas vieram antes dela, mas jamais atingiram seu grau de demanda. Trata-se de moeda virtual que não possui controladores, nação, depósito material ou mesmo produção física. Coisa de Internet, que também é uma rede imensa, complexa, repleta de trilhas e desvios, mas que não existe materialmente. As compras e vendas dos bitcoins são efetuadas por operadores virtuais, em transações eletrônicas que impõem um preço para compra e outro para a venda (como se faz nas operações com moedas estrangeiras).

As operações são bem simples: o saldo em moeda nacional existente em conta bancária do investidor é trocado pela moeda eletrônica na cotação de compra do momento, constituindo-se em sua carteira virtual e vendida posteriormente (a critério do titular), pela cotação de venda. No primeiro momento, o investidor emite uma ordem de compra e no segundo (quando desejar), emite uma ordem de venda.

Para controlar seus investimentos, bem como os respectivos créditos e débitos e as cotações virtuais, o investidor maneja seu dashboard, espécie de extrato virtual amigável e de simples operacionalidade.

E os riscos dos bitcoins? São muitos e absolutamente imprevisíveis.

Trata-se de operações sem a menor fiscalização do Estado, dos bancos centrais, das autoridades monetárias e de valores mobiliários, sem endereço e sem qualquer controle por parte dos investidores. As fantásticas valorizações que vêm ocorrendo nesse mercado podem refletir:

- O "comportamento de manada" (que é o aporte de multidões de aplicadores incentivados por outros anteriores – “maria vai com as outras”) e que não reflete uma situação real de oferta e demanda, mas apenas entusiasmo repentino e às vezes passageiro.

- Forte entrada de capitais de operações criminosas, como tráfico de drogas, de armas, de pessoas e outras, em busca de condições propícias para sua “lavagem de dinheiro”. Não é, portanto, companhia recomendável para investidores verdadeiros.

- Desejo de grupos terroristas esconderem e “lavarem” seus capitais, bem como transferi-los mais facilmente para compra de armas, explosivos e pagamento de integrantes. Já houve comprovação (inclusive com prisão de suspeitos) de que o Exército Islâmico vem utilizando os bitcoins para esse fim.

- Uma imensa bolha financeira não sustentada pelo mercado formal e que pode explodir a qualquer momento, deprimindo fortemente suas cotações. Consideremos que o comércio físico ou mesmo o e-commerce ainda não aceita em sua totalidade os bitcoins como forma de pagamento, mesmo com a crise de vendas que enfrenta atualmente.

Enfim, é um mercado financeiro virtual que se posta no mesmo caminho dos bancos on line que já operam fartamente do Brasil e no resto do mundo. É tendência que veio para ficar, até mesmo com o encolhimento das instituições que operam fisicamente.

As moedas virtuais continuarão a existir e certamente se integrarão ao mercado de comércio e indústria, convertendo-se em verdadeiros meios de pagamento e de investimento. Farão parte do mundo e da vida de cada um de nós no futuro próximo. Para isto deverão ser regulamentadas e efetivamente fiscalizadas pelo Estado e por quem de direito.

Por enquanto são um imenso risco. Coisa para profissionais e entendedores.

Amadores só servem, nesta situação, de massa de manobra para a obtenção de gordos lucros pelas raposas de plantão.


Uma fantasia que pode custar muito caro!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

EUA TRANSFEREM EMBAIXADA PARA JERUSALÉM. E NÓS COM ISTO???



Perguntem a alguém qual a capital de Israel e muitos dirão de imediato: TEL AVIV.

Muitos não sabem, entretanto, que Jerusalém é a verdadeira capital política do país desde 1950 (pouco após a criação do Estado de Israel). Assim foi declarada após os primeiros embates militares entre judeus e árabes.

Tel Aviv é, na realidade, o centro financeiro (como São Paulo é para o Brasil). Entretanto, por razões políticas e estratégicas as embaixadas lá se situam, e não na sede política.

Jerusalém (assim como Israel de uma forma geral) é um território extremamente estratégico. Próximo a diversas nações árabes, potencial ou abertamente hostis, tem seu território oriental há muito reivindicado pelo povo palestino. Nenhuma conceituação melhor para lá que barril de pólvora cujo rastilho já se acendeu várias vezes e cuja explosão ameaça a cada momento, apenas alternando-se entre maior ou menor risco.

É uma cidade única no mundo por ser disputada avidamente por três religiões distintas, CRISTIANISMO, JUDAÍSMO e ISLAMISMO. Destruída, reerguida, atacada e renascida no correr da história, vem sendo objeto de disputas políticas e militares há séculos.

Divide-se informalmente em distritos (ou bairros) habitados por integrantes das três religiões, que mantêm conflitos explícitos ou velados todo o tempo. A região de domínio judeu é onde fica, dentre outros, o Muro das Lamentações (local onde Abraão ofereceu seu filho ao sacrifício, conforme a Bíblia). A região cristã contempla o local onde estaria o Santo Sepulcro, o Calvário e outros locais sagrados. Na parte muçulmana fica a mesquita de Al-Aqsa, um dos monumentos sagrados para os muçulmanos e foco de grandes peregrinações de fiéis.

Jerusalém é um exemplo bem acabado do paradoxo religioso: a religião, criada sob o fundamento do religare latino é objeto hoje de tanta desunião e tantas guerras. Quantos já morreram por suas crenças e quantos já mataram em nome delas? Com toda a certeza Jeová, Deus ou Allah não aprovam isto (ou não aprovariam, como quiserem alguns).

O domínio institucional e militar é dividido entre os judeus e os palestinos, que também reivindicam o local para a capital de seu Estado em formação. Hoje mais de 100 nações independentes reconhecem a Autoridade Palestina como ente político, em um caminhar que se originou com a OLP e que fatalmente levará à instituição de um Estado independente, ainda que após muito derramamento de sangue.

Em meio a esse caldeirão fervilhante de interesses políticos, econômicos, estratégicos e religiosos aparece Trump com mais uma das suas: a transferência da embaixada americana (atualmente em Tel Aviv) para Jerusalém.

O presidente norte americano tem sido forçado a engolir de forma enviesada o líder norte-coreano Kim Jong-un, que o enfrenta sistematicamente. A supremacia da maior potência bélica do planeta tem sido provocada pela versão asiática do “Rato que Ruge” (nenhuma comparação entre Peter Sellers e o líder coreano, obviamente). Talvez seja esse o motivo para a emblemática transferência da representação diplomática.

Em termos práticos, aparentemente significaria apenas uma medida administrativa. Em termos geopolíticos, entretanto, equivale à oficial declaração dos EUA admitindo Jerusalém como território sob a soberania israelense, em detrimento dos anseios da comunidade árabe internacional. Representa também a tomada de posição do país mais poderoso do mundo no conflito árabe-israelense, após reiteradas tentativas – inclusive de presidentes anteriores – no sentido da paz e da coabitação entre as partes em litígio.

Tomar parte abertamente em favor de uma das faces do conflito, em qualquer situação que se apresente, é renunciar à tentativa de acordo e abandonar a paz como meta. Um simples ato como este tomado por Trump pode desencadear mais conflitos, centenas de mortes e até mesmo uma nova guerra na região.
Esquece-se ele ainda que o mundo globalizado (estratégia diuturnamente defendida pelo capitalismo americano) também internacionaliza conflitos. Que o digam o Estado Islâmico e a al-Qaeda, que em sequência às intervenções militares  na África e na Ásia expandem suas agressões à Europa e aos EUA, na esteira do frissom econômico-financeiro global.

E nós com isto?

Tudo temos a ver em um planeta que transmite ao vivo as agressões entre potências, reverbera pela comunicação eletrônica ameaças e vírus e, na ocorrência de uma guerra de grandes proporções, colocar-nos-á no interior do cenário bélico. Já passou o tempo em que os atentados eram só um problema das partes envolvidas. Hoje a bomba detonada Avenue d'Lèna em Paris  ou o atentado que atinge o metrô em Londres lançam seus estilhaços no  sofá do brasileiro que assiste ao programa jornalístico noturno.

Não dá mais para considerarmos o que acontece do outro lado do mundo como “coisa de estrangeiro”. É problema nosso e, se não contribuímos diretamente para suas causas, poderemos participar ativamente de suas consequências...

  

terça-feira, 7 de novembro de 2017

ATÉ TU, ELIZABETH! – A farra dos Paradise Papers e das operações Offshore



Já há muito conhecemos os paraísos fiscais espalhados pelo mundo afora (Luxemburgo, Ilhas Cayman, Singapura, Costa Rica, Ilhas Salomão, Liechtenstein, San Marino, Panamá, Uruguai e tantas outras nações). Servem para a condução de operações offshore, seja sob a forma de contas bancárias, seja pela fundação de empresas (que muitas vezes nada fabricam ou vendem).

A denominação paraísos fiscais decorre do fato de que os valores aplicados ou investidos não são tributados, ou seja, estão livres de impostos e outros custos similares. Um sonho que pode se tornar real: o dinheiro rende como se estivesse no mercado financeiro normal, mas o aplicador está livre das garras do Estado. É um contínuo tilintar de dólares que deveriam abastecer atividades como educação, saúde segurança ou transportes e que desaguam nos bolsos de ávidos investidores.   

Mas não é só isto. As instituições (e os países) não costumam perguntar sobre a origem dos recursos financeiros. Assim, pode-se deduzir que há dinheiro de simples aplicações em fuga de tributos, bem como receitas do tráfico, da manutenção financeira de grupos paramilitares, da corrupção política, enfim, um balaio de gatos nominado em dólares.

Quanto às empresas offshore, teoricamente são investimentos realizados naquele país (paraíso fiscal) por não residentes, ou seja, titulares que as comandam e residem em outras nações. Parecem até multinacionais ou filiais internacionais de empresas como Nestlé, Petrobrás, Google, Johnson & Johnson, Microsoft e tantas outras. Mas não é isto. Há fundamentais diferenças. As offshore não têm atividade econômica, ou seja, nada fabricam, nada vendem e nada produzem, salvo operações destinadas a dissimular o trânsito financeiro. Costumam movimentar milhões de dólares instaladas em modestas salas ou prédios que não fazem jus ao grande volume de recursos aplicados. Estão ali para “limpar” dinheiro escuso ou para fugir à tributação devida nos países de origem (ou ambas simultaneamente).

Há escritórios especializados em conduzir tais operações, como o Mossack Fonseca, que esteve por trás do escândalo dos Panama Papers ocorrido em 2016 e que deixou às claras tais operações abastecidas por dinheiro da corrupção brasileira, conforme apurado pela Lava Jato.

A criativa engenharia envolve até mesmo as chamadas shell companies, empresas fantasmas que não contam sequer com prédios ou funcionários. Apenas um registro contábil e administrativo e um número de conta em banco, apenas fachada. Por ali transitam verdadeiras fortunas, tudo controlado por um esquema milimetricamente coordenado por escritórios como o Mossak ou, no caso dos Paradise Papers, também a Appleby.

Consideremos ainda que a titularidade das offshore é muitas vezes escamoteada em uma rede de interligações e de domínios acionários intrincados que, mesmo sob a proteção do sigilo oferecido, não deixam à mostra os verdadeiros donos.

Agora temos o escândalo dos Paradise Papers, que fez o Panama Papers parecer uma brincadeira. Foram divulgados alguns dos mais de 13.000.000 de arquivos de operações mantidas principalmente em Bermudas e Cingapura, contendo investimentos de pessoas como secretários do governo Trump, do governo canadense, uma lista imensa de políticos das mais diversas nacionalidades, jogadores de futebol, empresas como Nike e Uber, celebridades como Madona, Bono e muitos outros.  No meio dessa leva de privilegiados milionários e bilionários – pasmem – foi descoberta nada menos Elizabeth II, emblemática rainha da Inglaterra.

É muito sugestivo o fato de que uma rainha busque sonegar tributos que deveriam ser recolhidos ao próprio reino que governa... Francamente, soberana!!!

Discutir a legalidade ou não de tais empresas passa necessariamente pela discussão da moralidade envolvida. Até onde sonegar pode ser considerado um direito? A defesa da rentabilidade dos capitais pode superar o direito dos cidadãos utilizarem os recursos oriundos da tributação?  

Por estas e outras a presença de uma rainha em tão desconfortável lista é algo especial e que demonstra a escala de valores que domina a sociedade humana.

Mais informações sobre o tema no site dos investigadores do ICIJ – International Consortium of Investigative Journalists, que trouxeram a lume esse escândalo: https://www.icij.org/investigations/paradise-papers/



sábado, 4 de novembro de 2017

The Mountain Between Us



O filme é uma livre adaptação do livro homônimo, do escritor Charles Martin, relatando as desventuras de dois passageiros de um monomotor que se acidenta sobre geladas montanhas canadenses. A trama se desenvolve misturando a luta pela sobrevivência e a expectativa de romance entre os personagens. Tentando proporcionar alguma graça ao filme, um cachorro participa de todas as desventuras como terceiro personagem. Nem o animal salva a produção das piadas sem graça jogadas no decorrer da história.

A atriz Kate Winslet, no papel da jornalista Alex Martins e dona do olhar mais poderoso de Hollywood é atriz premiadíssima. Britânica de nascimento, foi indicada ao Oscar por sete vezes, tendo feito jus à estatueta por “O Leitor”, com sua brilhante e inesquecível atuação. Além disto, venceu um Emmy (pela série “Midred Pierce”, ou “Almas em Suplício”), quatro Globos de Ouro (“Revolucionary Road”, “O Leitor”, “Midred Pierce” e “Steve Jobs”), além de diversos outros.

Idris Elba, na pele do neurocirurgião dr Ben Bass, também britânico, não possui um currículo tão brilhante, mas foi premiado principalmente pelo Globo de Ouro pela minissérie “Luther” e participou do extraordinário “Beasts of no Nations”, da grife Netflix, onde atua como destacado protagonista.

A história é banal e já foi abordada em diversos outros filmes. A direção opta por clichês que repetem outras situações já vistas e revistas anteriormente. O espectador muitas vezes tem a impressão de já ter assistido àquelas cenas de montanha. A fotografia não apresentou nada especial, a não ser a natural beleza das paisagens, enfocadas em tomadas amplas e sucessivas. A natureza é o show do filme, por si só. Neste particular, melhor assistirmos aos episódios de National Geografic.

O suspense, quase ausente da produção, tem rápida abordagem na cena envolvendo o ataque de uma puma, único momento de tensão na película. Melhores momentos animais, entretanto, vide Animal Planet.

O desempenho dos atores é surpreendentemente fraco, dando-nos a impressão de que não houve “química” entre eles. O romance não decolou entre dois atores pouco à vontade um com o outro, mesmo na pouco convincente cena de sexo.

O que dizer da ridícula cena final? Talvez para um filme adolescente feito para a Sessão da Tarde, mas nunca para essa produção.

Não perca seu tempo. Procure coisa melhor no canal Netflix.