terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O aniversário

Sílvio Lanna









Tenho mesmo certeza de que hoje é meu aniversário.
Ontem não era. Há muitos anos era.
Eu penso que aquele bolo colorido de palhaços e trapezistas com uma vela colorida por cima 
também era de aniversário. Mas já faz muito tempo.
Eu até ganhei um monte de presentes bonitos que ficaram amontoados aos trapos e pedaços 
no meu guarda coisas.
É lá também que estão tantas lembranças escuras, marrons, vibrantes e as brilhantes.
É lá também que eu retorno vez por outra e encontro algumas partes de mim 
que não reconheço hoje.
Mas é difícil chegar. Tem aquela escadaria de pedra grossa.
Costuma estar molhada de uma chuva que vem de algum lugar lá perto.
Escorrega. Cansa. Assusta.
Mas também é lá que estão todas aquelas pessoas que me cumprimentam, 
que me fixam nos olhos e perguntam pela cor do dia lá fora. E eu nunca sei dizer...
Digo apenas que existe uma diferença entre todo dia e o dia do aniversário.
É que no dia do aniversário a gente ganha um presente que dura um ano.
E depois a gente leva para o depósito e se prepara para enfrentar outro.
É assim que os dias se sucedem.
É assim também que as vidas se sucedem.

Soneto de aniversário

Vinícius de Moraes


Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece. 


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O menino perdido


Pablo Neruda

Lenta infância de onde 
como de um pasto comprido 
cresce o duro pistilo, 
a madeira do homem. 
Quem fui? O que fui? O que fomos? 
Não há resposta. Passamos. 
Não fomos. Éramos. Outros pés, 
outras mãos, outros olhos. 
Tudo foi mudando folha por folha, 
na árvore. E em ti? Mudou a tua pele, 
o teu cabelo, a tua memória. Aquele que não foste. 
Aquele foi um menino que passou correndo 
atrás de um rio, de uma bicicleta, 
e com o movimento 
foi-se a tua vida com aquele minuto. 
A falsa identidade seguiu os teus passos. 
Dia a dia as horas se amarraram, 
mas tu já não foste, veio o outro, 
o outro tu, e o outro até que foste, 
até que te arrancaste 
do próprio passageiro, 
do trem, dos vagões da vida, 
da substituição, do caminhante. 
A máscara do menino foi mudando, 
emagreceu a sua condição enfermiça, 
aquietou-se o seu volúvel poderio: 
o esqueleto se manteve firme, 
a construção do osso se manteve, 
o sorriso, 
o passo, o gesto voador, o eco 
daquele menino nu 
que saiu de um relâmpago, 
mas foi o crescimento como um traje! 
Era outro o homem e o levou emprestado. 
Assim aconteceu comigo. 
De silveste 
cheguei a cidade, a gás, a rostos cruéis 
que mediram a minha luz e a minha estatura, 
cheguei a mulheres que em mim se procuraram 
como se a mim tivessem perdido, 
e assim foi sucedendo 
o homem impuro, 
filho do filho puro, 
até que nada foi como tinha sido, 
e de repente apareceu no meu rosto 
um rosto de estrangeiro 
e era também eu mesmo: 
era eu que crescia, 
era tu que crescias, 
era tudo, 
e mudamos 
e nunca mais soubemos quem éramos, 
e às vezes recordamos 
aquele que viveu em nós 
e lhe pedimos algo, talvez que se recorde de nós, 
que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos 
com a sua língua, 
mas das horas consumidas 
aquele nos olha e não nos reconhece.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Gafes nossas de cada dia...





Tentando capitalizar qualquer coisa que pudesse atingir Dilma 
o deputado de esquerda, digo, direita,  digo nenhum dos dois 
(não sei em que posição ele se encontra neste momento), 
Roberto Freire, caiu em uma pegadinha ridícula. 
Diziam que as notas de real viriam com a inscrição "Lula seja louvado". 
Imediatamente ele disparou em seu twitter: 


Dialética nossa de cada dia...




terça-feira, 12 de junho de 2012

Inspirem-se


Enfeitem-se 









                                                                           Acalentem-se...









Abracem-se...








                                                               Protejam-se...







  Troquem frases de amor...








                                                               Cuidem de suas crias...







Sejam carinhosos...






                                                 Façam cafuné...  






Troquem olhares comprometedores...








Mas não se esqueçam daquele presentinho que sintetiza seus sentimentos...




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Saudade


                                                                                                          Sílvio Lanna

Aferrolhou a porta, que rangiu sob o peso de tantos anos de serventia.

Era o casarão dos Borges, que testemunhara a riqueza das pepitas rolando ao leito do Ribeirão da Agonia até a aspereza dos tempos de seca que agora vivia. Seca de água, seca de consolo.

Ferrolho na porta, recolheu-se a seus pensamentos e, como sempre fazia todos os dias, ele rememorava particularmente Alzira. E perdeu-se novamente no mar de nostalgia e de saudades que brotavam acalentadas por ausência tão intensa.

Dormiu.

Manhã renascida, entregou-se à lida. Mão na enxada, abateu o mato que teimava por entre as alfaces e as couves. Pé na estrada foi estar no curral onde Zé Carneiro já se desincumbia da tiração do leite e do soltar a vacada pasto acima.

O andar já não mais ajudava, trôpego que estava.  As vistas já não percebiam com a clareza de antes que uma nova safra de margaridas ornava o terreiro, ou que os ipês amarelos mesclavam-se ao verde do pasto, qual bandeira pátria por Deus hasteada.

Nada podia, a não ser desfazer-se da propriedade que durante os últimos setenta anos fôra sua morada e seu alento. Mas, e fazer o quê depois?

Aflorando em meio a tanta tristeza tinha também as recordações dos anos felizes ao lado de Alzira – quarenta e tantos – que tão bons foram, tanto de doce lembrança largaram. Trouxeram também Modesto Júnior, Ricardo e Maria do Céu. Os dois, já de muito prá São Paulo, raramente tornavam à terra que os parira – apenas três vezes nos últimos dez anos. Também não ligavam – telefone não havia. Nem escreviam – dava gastura.

Já Maria do Céu, não. De mês em mês dava as caras, permitida que estava por Jaquetão, marido que o destino lhe reservara (ou lhe condenara). Tornava a ver o pai quase sempre na tardinha do dia, para retornar pro almoço de amanhã. Na roda das horas que corriam ainda sob a luz evitava contar as agruras sofridas de um marido bruto, um animal quando movido pela cachaça.

Falava do café, cuja panha já se avizinhava e que deveria somar mais de cem sacas, já limpo. Falava também dos queijos que lhe tomavam parte do dia e que embalavam pensamentos nascidos lá na sua infância e que hoje, já rotos pela desesperança, tinham tomado cor de foto velha, amarelecidos e embolorados.

Não falava dos desejos de adolescente, que tanto lhe incendiavam a alma, porém impedidos que foram pelo pai. Desejara também ir para São Paulo com os irmãos, pra ver cinema, andar pelas ruas lotadas de gente, sentir cheiro de fumaça. Tudo o que não tinha naquele canto esquecido do mundo, emoldurado por um riacho que também era Agonia.

Avançando a noite entremeio às mesas, portas e janelas, era hora de dormir, a partir da bênção paterna, sempre fria e automática.

Pronto, estava ele novamente só, cada vez mais só, já começando a fazer parte da paisagem e deixando ser o cabra vigoroso que havia erguido tudo aquilo a poder do muque e do trabalho de sol a sol.

A partida de Alzira apressara a decadência que a idade se incumbiria de providenciar. Não era qualquer saudade, era uma saudade funda que alcançava até os pontos mais obscuros de sua alma. Era dolorida também, a ponto de deixar vontade de esquecer o mundo, os filhos ingratos, as criações e até mesmo os ipês que se coloriam mais e mais só para tentar trazer um pouco de vida à sua morte latente.

A aragem fria anunciava mais um inverno, a neblina já subia do brejo que ladeava o Agonia e a cerração já comparecia forte na noite gelada. O rangido da cama ajudava a esfriar mais, não era época para atravessar as noites acompanhado da insônia. Nada mais, era só esperar de novo a manhã com seus raios de calorzinho bom.

Desaferrolhou a porta para de novo tomar o caminho do curral, só que desta vez com o chão molhado de sereno e com as Angolas cantando mais espaçado, frio que estava.

Tomou seu rumo mais uma vez. Passou pelo curral e nem atendeu ao bom dia de Zé Carneiro. Foi visto atravessando a porteira da Fazenda das Cruzes e subindo o pasto do seu Levindo.  Dobrou naquelas alturas, sob as moitas de bambu que rangiam ao vento constante e nunca mais foi visto.